The Christmas Gift

30 de novembro

     Por ser inverno, o frio ficava cada vez mais intenso. A neve ainda não havia começado a cair – mas só de olhar pela janela já se percebia o frio que estava do lado de fora. Hayley acordara cedo, porém ficou na cama, confortável debaixo de seus cobertores. “Não quero sair daqui hoje”, pensou ela. Mas não havia nada para fazer, então, logo o tédio chegou. Quando ela levantou e olhou no relógio eram um pouco mais que nove horas. Após tomar uma caneca bem cheia de leite quentinho, vestiu-se e saiu de casa a procura de alguma loja boa aberta. Avistou uma loja de discos. “Perfeito”, pensou ela enquanto entrava.

     Dentro da loja estava bem quentinho, parecia que haviam ligado o ar condicionado. Hayley desapertou o cachecol e tirou o casaco, e saiu andando pela loja, observando tudo. Acabou por passar a manhã toda lá - o tempo parecia não passar enquanto ela se divertia escolhendo seus discos favoritos.

 - Nossa, são tantos!  - disse a moça do caixa ao registrar sua compra, parecendo realmente surpresa.

- Acabei comprando o presente de Natal de todos os meus amigos! – respondeu Hayley entre risos.  Ao pegar suas coisas e sair da loja, avistou um grupo de crianças mexendo em algo.Logo, se deu conta de que aqueles meninos estavam com um cachorro. Percebeu algo de estranho, e se aproximou um pouco para verificar. Quando viu o que os meninos estavam amarrando uma corda cheia de latas na cauda do bichinho, decidiu fazer alguma coisa.

 - Ei, crianças! – disse ela se aproximando deles – Não têm vergonha de fazer isso?

- Cai fora, moça. A senhora não tem nada que ver com isso – respondeu um deles

- Ora! Isso é modo de falar?

- Com você é, sua ruiva esquisita. – ao ouvir essa resposta, Hayley ficou sem reação. Abriu a boca para falar, mas as palavras não saíam.

- O que ainda está olhando? – outro deles retrucou quando viu que ela ainda estava lá. Nisso, se ouviu uma voz.

- Ei! Parem com isso. Não se faz isso com um pobre cachorrinho e muito menos se diz algo assim para uma moça tão bonita quanto essa – Hayley olhou pro lado e percebeu uma menininha miúda, pequenina e que aparentava ter uns 10 anos de idade. Seus cabelos eram curtos e meio lisos, de um laranja quase incandescente.

- Não enche menina. O que você faz aqui também? – disse um dos meninos

- Ora, vim salvar o cachorro.

- Ah, sei. E você pode com a gente?

- Claro! – ela fazia posição de luta e levantava os punhos. Um dos garotos se aproximava quando ela mexeu o braço e acertou-o em cheio no nariz. Os outros olhavam-na espantados. Ela continuava com os punhos altos quando todos os meninos saíram correndo. Ao vê-los se afastar, ela abaixou os punhos e tirou a corda da cauda do cachorro. Hayley olhava-a encantada, e sorriu quando a garotinha deixou o cachorro ir embora e olhou para ela. - Desculpa fazer isso na sua frente, senhorita. Mas foi preciso. – ela riu, e Hayley também.

- Não tem problema. – e fez sinal positivo – Você tem coragem!

- Ah, estou acostumada. Eu vivo brigando! – ela riu – Mas claro que não é de dar socos assim... Mas quando quero sou bem forte! – dizia ela, parecendo orgulhosa de si mesma. – Puxa, esqueci. Já estava sendo mal-educada. Meu nome é Annie. – a pequena estendeu a mão. Hayley sorriu, e estendeu a sua para apertar a da criança.

- Muito prazer, Annie. Me chamo Hayley.

- Você é bonita! Queria ter cabelos assim, olhos legais.

- Mas até que nossos cabelos são parecidos! – disse ela, puxando uma mexa da menina.

- Aaah e não é? – riu ela – Eu gosto de ser ruiva.

- Querida, não sente frio assim, só com isso? – Hayley olhava atenta às vestes de Annie: ela parecia usar várias blusas velhas por baixo de um vestido, e também um par de meias-calça grosso para aquecer as pernas. Estava tudo bem abatido.

- Ah, não... O frio não me incomoda. Estou acostumada com isso! – disse Annie entre sorrisos

- E seus pais, não ficam preocupados? – nisso a menina olhou pra baixo – O que houve Annie?

- Eu não tenho pai e mãe...

- Não?

- Não...

- Ah, me desculpa, eu não queria...

- Não precisa se preocupar, estou acostumada com isso – a garotinha deu um enorme sorriso que, de certa forma, fez Hayley sentir um alívio.

- Bom, e onde você mora?

- Eu morava naquele orfanato aqui perto – ela apontou o outro lado da rua – mas eu fugi de lá, não gosto! – disse ela fazendo cara de nojo, fazendo Hayley rir mais uma vez.

- Mas deve voltar Annie... Onde você vai morar se não for lá?

- Qualquer lugar é mais legal que lá.

- Sério? – Annie balançou a cabeça positivamente em resposta. Hayley ficava se imaginando o que essa criança faria ali, sozinha, longe do lugar em que morava e, principalmente, o que aconteceria com ela naquele tempo frio e úmido e exposto a outros perigos. O que faria sobre isso? – Annie, não quer passar o dia comigo?

- Com você? Você diz na sua casa e algo do tipo?

- Sim! Aproveitamos que estamos de manhã cedo, podemos fazer muitas coisas.

- Aaah eu iria adorar! – os olhos de Annie brilharam ao ouvir as palavras de Hayley. Ela deu um pequeno salto.

- Mas tem uma condição. – ela viu Annie se desanimar um pouco, e abaixar a cabeça.

- Ah, qual?

- Você vai me deixar te levar de volta pra sua casa no final do dia. – alguns segundos se passaram em silêncio, e Annie coçou a cabeça, parecendo pensar. Suspirou, suspirou...

- Ta legal. Eu deixo. – e sorriu.

- Ótimo! – disse Hayley. – Agora vamos, você precisa de um casaco – e puxou a garotinha pela mão, levando-a a algum lugar. Elas andaram alguns quarteirões e entraram em uma loja aparentemente simples pelo lado de fora, mas que era linda e muito grande. Lá havia roupas de todos os tipos: desde bebês até adultos, de todos os tipos. Annie olhava a tudo atenta e boquiaberta, enquanto Hayley a conduzia para um corredor onde estavam vários casacos pendurados, todos de seu tamanho e bastantes coloridos. – Escolhe um, Annie. – ela olhou para Hayley com os olhos meio arregalados.

- Qualquer um?

- Sim, o que você gostar mais. – A garotinha soltou um gritinho e começou a analisar todos os casacos. Parecia não saber o que ver primeiro, tamanha empolgação. Pegava casacos verdes, azuis, vermelhos, pretos. Experimentava todos e não se decidia. Hayley assistia àquela cena com um sorriso enorme no rosto. “Até que enfim, estou fazendo uma ajuda que realmente vale a pena!”, pensou. Sentiu alguém cutucá-la.

- Olha Hayley! – Annie lhe mostrava um casaco rosa e branco, que vinha junto com uma touca das mesmas cores. – Não é lindo? – Hayley olhou o casaco e tocou-o com uma das mãos.

- Lindo mesmo! – sorriu – É esse que você quer, querida?

- Sim, sim! – Annie fez sinal positivo com a cabeça.

- Então vamos levá-lo. – Hayley sorriu e foi logo pagar o casaco. Quando voltou, entregou-o para Annie, que vestiu o mesmo na hora.

- Não ficou lindo?

- Demais! – sorriu – Agora, o que quer fazer?

- Onde você mora?

- É aqui perto, querida.

- Posso conhecer sua casa, então? – disse ela, corando e parecendo envergonhada com a pergunta que fazia.

 - Claro! Vamos até lá. – e as duas saíram da loja e seguiram em direção ao prédio onde Hayley morava. Subiram, e Annie pareceu meio perdida no elevador. Hayley deu um leve sorriso para a criança que parecia nunca ter visto aquilo na vida, e ficou pensando que teve sorte em encontrá-la, pois andava com um péssimo humor e encontrar Annie teria feito seu dia de certa forma mais alegre. Ao entrarem no apartamento de Hayley, a pequena Annie olhava tudo muito atenta. Saiu andando pela sala, observando os quadros, a lareira, os móveis. Parecia estar encantada com o novo ambiente que estava vendo e queria tocar em tudo.

 - Eu nunca tinha visto uma casa tão bonita assim na minha vida! Nem em revistas, nem em lugar nenhum! – exclamou a garotinha

- Gostou mesmo? Pode não ser o melhor lar do mundo, mas sem dúvidas é confortável e me faz sentir bem. – sorriu Hayley, e olhou para Annie – Está com fome?

- Ahn... – olhou para abaixo – Minha barriga roncou! – riu ela. Isso fez Hayley rir também.

- Então vamos comer alguma coisa. Vem. – Hayley ajudou-a a tirar o casaco e a touca, e os deixou em um canto. Seguiam para a cozinha, onde Annie sentou-se em uma das cadeiras coloridas que tinham em volta da mesa. – O que você quer? – perguntou ela, olhando Annie se sentar.

- Qualquer coisa pra mim está bom, desde que não seja mingau. Eu como isso todo dia, éca! – e fez cara de nojo.

- Hum, então tudo bem. Acho que já sei. – e começou a procurar as coisas nos armários.    – Eu não sou uma excelente cozinheira, mas a minha comida é boa pra mim! – riu, e isso fez com que Annie risse também.

- Tenho certeza de que vou gostar. – Algum tempo se passou, e um cheiro gostoso começou a espalhar-se pelo ar. Annie observava Hayley cozinhar atenta, prestando atenção em tudo e perguntando sobre o que não sabia. “O que é isto? Pra quê serve aquilo?”. Assim o tempo passou rápido e logo Hayley e Annie estavam sentadas à mesa comendo um delicioso macarrão. Enquanto comiam, Annie só fazia elogios, deixando Hayley alegre e um tanto envergonhada. As duas meninas, pelo visto, haviam se entendido como nunca.

    Também durante a refeição, Hayley pediu a Annie que contasse sobre ela. Annie contou tudo sobre sua curta vida – ao menos o que ela se lembrava. Contou do lugar onde vivia, e o que fazia lá e também porque havia fugido.

- Lá eles são ruins pra gente – disse ela enquanto tomava um gole d’água – A diretora que deveria fazer o serviço ou contratar pessoas para fazê-lo, ela nos faz trabalhar e não nos dá nada, pois fica com todo o dinheiro que sobra do pouco que ela usa pra gente lá. O lugar é sujo, então nós limpamos por não gostarmos de sujeira. Mas é ruim... Eu queria estar fazendo outras coisas com as minhas amigas, ao invés disso.

- E vocês não vão pra escola?

- Vamos, e é na escola que a gente tem tempo livre! Mas agora que estamos de férias não é legal. Queria que as férias não existissem! – disse ela com uma carinha de braba.

- Mas e a diretora... Não vão mudá-la?

- Ah eu espero que sim! Um dia. E se não mudarem eu fujo mais uma vez. – no que Annie terminou de falar, Hayley suspirou. Não poderia simplesmente ficar com ela, mas não queria deixá-la voltar praquela situação. Sacudiu a cabeça quando ouviu alguém bater à sua porta. Levantou e foi atender e, ao abrir, teve uma surpresa: eram seus colegas de banda Jeremy e Taylor!

- Rapazes! – disse ela, parecendo contente – o que estão fazendo aqui?

- Viemos fazer uma visita antes de irmos visitar nossas famílias. Natal está chegando, sabe como é, né? – disse Jeremy. Hayley riu.

- Ah, verdade! Entrem, vamos! – e fechou a porta. Taylor avistou o casaco rosa e as sacolas em cima do sofá.

- Está com visitas?

- Sim, uma visitante bem especial! – sorriu ela.

- E quem é? – perguntou Jeremy. Nisso, Annie estava parada à porta, observando os rapazes que haviam recém chegado. Hayley a viu lá e fez sinal para se aproximar.

- Taylor, Jeremy... – disse ela, enquanto chegava perto da garotinha e tocava seus ombros. – Esta é Annie, minha nova amiga – e sorriu.

- Olá! – disse ela enquanto acenava para os garotos que lhe pareciam esquisitos, mas simpáticos.

- Ora, que garotinha simpática! – exclamou Taylor.

- Verdade, só poderia ser sua amiga, olha para o cabelo dela! – depois do comentário de Jeremy, todos riram juntos – De onde vocês se conhecem?

- É uma longa história – confirmou Hayley. – Não é, Annie? – e Annie concordou, balançando a cabeça positivamente. – Então... Annie venha cá. Vou lhe mostrar umas coisas. – ela levou Annie pro outro canto da sala, onde estavam a televisão, um rádio bem grande e várias prateleiras cheias de CDs. – Aqui estão as minhas músicas preferidas. Vou lhe mostrar algumas. - E retirou vários CDs do lugar, mostrando as capas para Annie um a um, e colocando-os para tocar. Jeremy e Taylor também ajudaram, contavam a ela o que podiam, o que sabiam sobre aquilo e sobre a música que eles tanto gostavam. A pequenina ficou encantada. Prestava atenção aos mínimos detalhes – e de vez em quando fazia cara de espanto, de vez em quando sorria. Assim, a tarde foi passando rápido, de música em música, de riso em riso, todos naquela sala foram se entendendo.

    Eles nem perceberam o dia passar – parecia que mal fazia meia hora que Annie havia entrado no apartamento de Hayley. Já estava prestes a escurecer, e os meninos tinham de ir embora. Se despediram da colega e de sua nova amiga.

 - Esperamos te ver de novo, baixinha – disse Taylor, dando-lhe um leve cutucão. Jeremy lhe deu um abraço, e os dois saíram.

 - Então, que tal achou? – disse Hayley

 - Seus amigos são muito divertidos! Adorei conhecê-los, adorei sua casa, adorei o casaco, adorei o dia! Acho que nunca me diverti tanto. Tive diversão o suficiente por anos, é sério.

 - Fico feliz que tenha gostado. – Hayley olhou para fora – Annie, já está escurecendo. É melhor te levar de volta, não é? – ela viu a garotinha suspirar e olhar para baixo – Eu sei que você não quer ir pra lá, querida. Eu também não, mas é preciso. Eles devem estar preocupados com você.

- É... – Isso fez Hayley sorrir. Lembrava-se de suas irmãs mais novas, e o quanto elas a faziam sentir bem. Teve o mesmo sentimento por Annie, exatamente o mesmo tipo de felicidade e alegria que sentia ao chegar perto delas. Ela se levantou de onde estava e ajoelhou-se para ficar na altura de Annie.

- Não fica triste, Annie. A gente vai se ver mais uma vez. Levanta essa carinha, vai. – e nisso ela encostou a mão no queixo de Annie e levantou seu rosto – Quero ver esse sorriso. – e foi o que ela viu. – Agora, coloca seu casaco e vamos. – ambas se levantaram e pegaram seus pertences. Feito isso, saíram de casa, de mãos dadas. A caminhada parecia longa demais para Annie. Não queria mesmo sair de perto de Hayley, pois havia encontrado nela uma grande amiga, alguém que ela queria estar junto pra sempre. “Pena que ela não pensa como eu...” pensou ela. Ao se aproximarem do prédio antigo onde era o orfanato que Annie viva, Hayley se ajoelhou na frente dela.

 - Nunca vou esquecer o dia de hoje, Annie. Vou sempre me lembrar de como você melhorou o meu humor e de como me fez sentir especial. – ela tirou do bolso do casaco uma pequena câmera. Puxou Annie para perto dela e tirou uma foto. – Vou guardar isso como lembrança, com carinho. E quando puder, mando te entregar uma cópia. Mas o que foi? – Annie parecia chorar.

 - Não quero, não quero ir! – ela abraçou Hayley com toda a força que podia – Você não pode me adotar? Eu prometo que vou ser boazinha!

 - Meu amor, as coisas não funcionam desse jeito...

 - Como assim?

 - É muita complicação. Se já é assim pra mim, imagina pra você? – ela colocou a mão na cabeça de Annie, parecendo acariciá-la. – Você vai achar um lar feliz, meu bem. Vai sim.

 - Duvido.

 - Não duvide nunca disso. É o seu sonho, não é? – Annie fez que sim com a cabeça – Então?

 - Eu queria ficar com você...

 - Eu prometo que vou te visitar, querida. Prometo. – e se abraçaram. Hayley e Annie foram até a porta, e ela explicou para a senhora que atendeu tudo o que havia acontecido. Ambas se desculparam e Annie foi perdoada por ter fugido de lá.

24 de dezembro

    A campainha tocou. Hayley foi abrir a porta, e recebeu em mãos o envelope pardo e grande que o porteiro lhe entregara. Ao fechar a porta, analisou o envelope e não reconheceu de quem era a letra que escreveu “Senhorita Hayley Williams”. Decidiu abri-lo mesmo assim. Se surpreendeu ao ver ali dentro várias fotos de Annie. Ela estava diferente: usando cachos, e um vestido vermelho-escuro. Em outra foto, posava ao lado de um homem que aparentava meia-idade, bem vestido e sorridente. Na parte de trás estava escrito: “Obrigada por me fazer acreditar que seria verdade. Suas palavras foram mágicas! Amor, Annie”.

    No envelope havia também uma carta que contava como Annie havia chegado lá, e também tudo sobre sua nova família. Era um homem solitário e rico que havia se casado com a secretária por quem se apaixonara, e eles queriam muito um filho. Localizaram aquele orfanato antigo e se encantaram por Annie. Pareciam estar muito felizes. Hayley sorriu. “Acho que acabei de ganhar meu presente de Natal”, pensou. Sua campainha tocou novamente, e Hayley recebeu os amigos e a família para celebrar aquela data que, a partir da leitura do que Annie lhe escrevera, foi muito mais alegre do que ela imaginava que seria.